Crônicas do Inferno II
O Guesa em Wall Street
de Carlos Torres-Marchal
Se se pudesse dizer de alguém que, ignorado em vida, foi vingado depois de morto, Sousândrade seria um sério candidato a este posto. Mas, lamentavelmente, tal vingança só existiria em uma cabeça muito ingênua.
O fato é, ignorado por seus contemporâneos, se não considerado louco, perseguido no fim da vida, em São Luís, pelas crianças que se impressionavam com aquele vulto magro, vestido como se pertencesse à boa sociedade, quando na verdade, já vivia do que sobrava de sua quinta da Vitória, às margens do rio Anil, Sousândrade vem se tornando, como bem dele disseram Augusto e Haroldo de Campos, um "terremoto clandestino".
Curiosamente, esse terremoto começa a se fazer conhecido, na verdade de uns pouquíssimos leitores, com a primeira edição da Re/Visão de Sousândrade, de Augusto e Haroldo de Campos, publicada enquanto se processava o golpe de 1964.
O estranho seria que o terremoto não sentisse os efeitos do ajuste das terras, patrocinado pelos pais da pátria. Durante anos, muitos anos, Sousândrade sobreviveu por umas poucas teses e alguns raros artigos. Mas, contra os que crêem na regularidade das leis e no determinismo das causas, por fora da raia começou a correr, há alguns anos, esta figura chamada Carlos Torres, um engenheiro peruano, que, não seria eu a explicá-lo, passou a se interessar intensamente por nosso terremoto.
O seu trabalho, não sei se o chamo de formiga ou de escafandro, por certo, de filólogo meticuloso, torna-se, a cada número desta revista, uma peça indispensável a mais para o entendimento desse episódio fantástico. Observe-se por fim essa curiosa coincidência: se o "revival" do poeta foi postergado pelo golpe de 64, sua compreensão minuciosa se dá contemporaneamente à atual crise da Bolsa. Sabendo-se que a crise já se espalha pelo mundo, pouco importa que o episódio se chame de Inferno de Wall Street ou, como prefere Torres, "O Inferno de Sousândrade". O que sim importa é que suas "personae" saiam da obscuridade e venham nos assombrar.