Contos / Destaques
Clarice rodopiava. A vitrola enchia o ambiente de música alta. Os braços erguidos; o quadril em movimento e as pernas alvoroçadas – preenchidas de tumulto. [...]
Era uma casa solitária com o teto duas águas e um grande oco no centro, uma casa pós moderna (…) e uma grande beirada de hortênsias (agigantadas e em um azul desbotado; ou brancas, ou cor de rosa como azaléias e chuviscos). [...]
“Aquele sol noturno” é a minha tradução de “That Evening Sun”, de William Faulkner. Segue-se o texto “Fragmento, Suspensão e Oscilação”, onde comento alguns aspectos da poética faulkneriana com ênfase especial nas estratégias formais que favorecem a abertura infinita da obra, cuja origem pode ser remontada ao Primeiro Romantismo alemão. (S.C.)
Contos
Cheguei atordoado e vazio ao mundo; tinha uma esperança dúbia em mim. Queria preencher o vazio perpetrado ao longo de minha existência efêmera, mas fui entendendo que nossos sulcos internos cristalizam-se com a mesma intensidade da ânsia, do desejo, do magro desejo de vida. [...]
Leio muito, exageradamente. Se minha profissão estivesse num dos vintes tomos do Catálogo de Ofícios, eu me apresentaria como parecerista. É o que sou. Em miúdos, aquele pago pelas editoras para opinar em jornais e revistas sobre as obras recentemente publicadas. A necessidade, mãe do talento, deixou-me órfão, embora o acaso, meu pai, tenha sabido muito bem como me amparar. Filho de escritor e de uma culta dona de casa, sempre tive acesso à casta pensante de nossa cidade. Isso leva àquilo, aquilo leva a outro e pronto: no supermercado, passo semanalmente vinte ou trinta minutos escolhendo bebidas, vinhos e chocolates na prateleira dos importados. Mesmo que eu saiba, de antemão, sempre, quais dos agrados eu levarei para casa. [...]

