Edição 8
Ano IV | Dez/2011

Literatura / Destaques

Andréa Sirihal Werkema

O Fragmento 216, publicado por F. Schlegel na revista Athenäum (1798), alinha, em pé de igualdade valorativa, a Revolução Francesa, a doutrina-da-ciência de Fichte e o Wilhelm Meister de Goethe. O fragmento antecipa o escândalo que tal combinação poderia causar – e chega à conclusão de que o leitor capaz de compreender o alinhamento de tão diversos fatos histórico-culturais seria alguém capaz de enxergar a revolução não apenas nos movimentos sísmicos das populações, mas também nos livros, depositários silenciosos das grandes mudanças do pensamento. Uma visão mais abrangente da história da humanidade requer, portanto, na visão de Schlegel, a aceitação de diversos “gêneros” (ou formas) da capacidade crítico-reflexiva dos homens de sua época. O próprio fragmento em que se encontra expresso tal alinhamento problemático seria já uma forma complexa e irônica, pois afirma, peremptoriamente, uma “verdade” dificilmente sustentável se examinada dentro de qualquer esquema lógico e/ou científico. (A.S.W.)

Mirella Guidotti

O presente artigo investiga a concepção filosófica do Romantismo de Jena enquanto atividade infinita. Através desta análise reflexiva aborda-se então o modo, a forma de expressão por excelência romântica: o fragmento, forma consciente dos limites da apresentação do todo. Não se trata, assim, de um aspecto meramente formal que visa o inacabamento, mas algo congênito: o fragmento constitui a visão romântica de totalidade; a totalidade se manifesta como um fragmento. (M.G.)

Pedro Paulo Corôa

O nosso objetivo é mostrar como a questão relativa ao gosto pode ser encontrada, enquanto forma particular de juízo, na obra de Rousseau, em especial, no Emílio. Em decorrência disso, tudo o que nós aprendemos sobre a gênese moderna do chamado juízo de reflexão estético, identificado à Crítica do juízo, de Kant, se não exige uma correção, nos obriga, pelo menos, a reconhecer, antes do esforço crítico, o surpreendente e certeiro tratamento do tema por parte de Rousseau, com consequências, sobretudo, entre os românticos alemães. (P.P.C.)

Tristan Torriani

O problema da incompreensibilidade em Friedrich Schlegel pode ser abordado de uma perspectiva pragmatista considerando também a crítica negativa de W. Benjamin ao Absoluto reflexivo do idealismo objetivo. Ao abordar a autoreflexividade pelo ponto de vista da intersubjetividade prática, o misticismo schlegeliano é desambiguado e desencantado. No entanto, sua proposta de unir filosofia e poesia pode receber um novo e viável sentido enquanto busca por analogias que facilitem a comunicação interdisciplinar. (T.T.)

Wilma Patricia Maas

Investiga-se aqui o estatuto do romance Lucinde, de Friedrich Schlegel, como parte do projeto do autor para a criação de uma teoria do romance moderno. Ao mesmo tempo, apontam-se prováveis descendências das ideias de Schlegel sobre a teoria do romance, como em Lukács e Walter Benjamin. (W.P.M.)

Literatura

Juliana Cristina Salvadori

É a partir do romantismo, em sua expressão alemã, que se dá a sistematização de uma prática crítica que se pensa e pensa a literatura a qual informa não mais em termos de sujeito e objeto, isto é, uma prática crítica que põe abaixo os limites entre o discurso literário e o não literário, uma prática crítica concebida como atividade criativa que, por meio de seu caráter reflexivo, ativaria algumas das infinitas possibilidades inscritas na obra. É para pensar esse caráter reflexivo da crítica literária, tão marcadamente moderno, bem como seus desdobramentos críticos e literários, que escrevemos esse artigo. (J.C.S.)

Renato Cardoso Corgosinho

Aos primórdios do romantismo alemão deve-se o quê de descompromisso entre o fazer literário contemporâneo e as ideologias artístico-culturais modelares. A premissa da liberdade e da liberalidade cultural e artística foi de certa forma inseminada ali e depois disseminada para outras culturas, as quais em muitos casos a adaptaram ou dela retiraram o essencial. O embate entre a tradição clássica e os apelos da nova conjuntura romântica deixou resquícios não só na literatura alemã, mas também nas neolatinas como a portuguesa. Discutiremos e refletiremos sobre alguns aspectos dessas trajetórias, detendo-nos especialmente no caso do escritor português J. B. de Almeida Garrett, polarizador em seu país da referida discussão. (R.C.C.)

Suzane da Silva Araújo

Nós nos acostumamos com a imagem dos românticos como pensadores fragmentários e sem rigor, como é, aliás, a imagem tradicionalmente aceita de Rousseau. Além disso, os românticos parecem, com sua atitude negativa em relação aos grandes sistemas, atualizar a mesma atitude intelectual do filósofo genebrino: assistemático antes que os românticos teorizassem sobre isso, Rousseau é a primeira expressão de uma crítica intuitiva do cientificismo que os mais rigorosos pensadores e poetas só fariam confirmar. Tendo isso em mente, gostaríamos de fazer um paralelo entre a formação da imagem dos primeiros românticos (Schlegel e Novalis, principalmente), e o modo como foi se consolidando a imagem histórica de Rousseau. (S.S.A.)

Anelito Pereira de Oliveira

Este artigo propõe uma rediscussão do livro Broquéis, de Cruz e Sousa, com ênfase na questão da indizibilidade, aspecto atribuído, geralmente, à poética simbolista como um todo, resultante de um desejo de transcendência. Analisando o poema de abertura da colet}nea, “Antífona”, procura-se associar o indizível sousiano à problemática da forma, cuja razão se encontra numa tentativa, da parte do poeta, de expressar o quadro histórico tumultuado do fim do século XIX. (A.P.)